Muitos de nós ouvimos na infância a história de Noé, que construiu uma arca para salvar a família e os animais do dilúvio. É uma narrativa maravilhosa, presente na Bíblia hebraica (Torá), no Antigo Testamento cristão e no Alcorão. Mas será que ela poderia ter uma base histórica? Os pesquisadores se debruçam sobre essa questão há muito tempo.
A narrativa bíblica
A história bíblica se passa em algum lugar do Oriente Médio. A família de Noé é formada por sua esposa, seus três filhos e as esposas deles. Noé é o único homem justo num mundo cheio de hipocrisia e ódio. Segundo o relato, era agricultor e cultivava a videira.
Segundo o livro do Gênesis, Deus anunciou a Noé que castigaria os homens por seus pecados, enviando um dilúvio que inundaria toda a terra. Para salvar Noé e sua família, ordenou-lhe que construísse uma embarcação e a revestisse de betume. A arca deveria ter três andares, um teto e uma porta.
O tamanho da arca
O mais surpreendente são as suas dimensões. A Bíblia as dá em côvados: 300 côvados de comprimento, 50 de largura e 30 de altura. O côvado correspondia ao comprimento do antebraço de um homem, cerca de 45 cm. Isso significa que a arca teria cerca de 137 metros de comprimento, cerca de 22 metros de largura e 13 metros de altura – mais ou menos metade do comprimento do Titanic.
Segundo o relato, a arca foi construída de madeira. Os engenheiros de hoje consideram essa premissa muito ousada. Nem os construtores navais do século XIX conseguiam construir embarcações de madeira desse tamanho sem reforços de aço, e um casco de madeira tão gigantesco logo começaria a fazer água.
Quantos animais havia a bordo?
Segundo alguns pesquisadores, a arca pode ter sido na realidade menor. Outro problema é o número de animais. Estima-se que existam milhões de espécies no mundo, e reunir e embarcar casais de todas elas em sete dias seria impossível – levaria muitos anos. A ordem, porém, pode ter se referido apenas aos animais que viviam nas terras habitadas por Noé.
O Gênesis especifica quais animais deveriam ser salvos e contém uma segunda parte das instruções. Noé deveria levar sete casais de cada animal puro, ou seja, dos que serviam como oferenda a Deus. O Levítico e o Deuteronômio enumeram cerca de dez dessas espécies – sete casais de dez espécies somam 140 animais. Além disso, Noé deveria reunir um casal de cada animal e ave impuros. Os livros mencionados enumeram pelo menos 30 dessas espécies, o que dá mais 60 animais. A isso se somavam sete casais de cada ave pura.
Segundo esses cálculos, poderia haver cerca de 360 animais na arca. Uma arca menor e menos animais fazem com que a narrativa comece a parecer mais plausível.
O dilúvio poderia ter coberto a Terra inteira?
A parte seguinte da narrativa levanta mais dúvidas. Segundo a Bíblia, a chuva caiu até que toda a terra ficasse debaixo d’água. Depois de uma catástrofe assim, deveriam restar sedimentos tanto em terra firme quanto no fundo dos oceanos. A busca científica por vestígios do dilúvio bíblico começou há mais de 150 anos, mas os pesquisadores não encontraram confirmação de uma inundação global.
Para submergir o planeta inteiro, seria necessária cerca de duas vezes mais água do que cabe nos oceanos. Segundo a Bíblia, choveu durante 40 dias e 40 noites, mas nem um temporal tão longo forneceria água suficiente.
O que, então, poderia ter causado um dilúvio assim? Talvez um cometa? Os cometas contêm enormes quantidades de água congelada. Mas, para inundar a Terra inteira, ele teria de ter mais de 1.600 km de diâmetro. Seu impacto seria a maior explosão da história do planeta, por isso os cientistas consideram esse cenário impossível.
As buscas no Ararat
Segundo a Bíblia, a arca pousou nos montes de Ararat, no território da atual Turquia oriental. Essas montanhas são há muito tempo local de buscas, mas não se encontrou nenhuma prova convincente – aliás, em condições naturais a madeira se decompõe em algumas centenas de anos.
Muitos biblistas consideram que a história de Noé, na forma atual, foi escrita por volta do século VI a.C., quando os sacerdotes judeus estavam exilados na Babilônia, no território do atual Iraque. Eles lhe deram um profundo sentido religioso – é uma advertência sobre o que acontece quando as pessoas se afastam de Deus.
As tabuinhas mesopotâmicas
Nesta história, porém, há um grão de verdade histórica. Há cerca de 150 anos, arqueólogos encontraram no Iraque fragmentos de tabuinhas de argila com a narrativa de um dilúvio, o que lançou nova luz sobre a história dessa tradição. Nelas é possível ler, entre outras, as seguintes palavras:
“Os grandes deuses decidiram enviar o dilúvio. Construa um barco. Leve nele a semente de todas as criaturas.”
A narrativa do dilúvio surgiu primeiro na Mesopotâmia. Os relatos antigos têm fontes diferentes, foram escritos em línguas diferentes e seu herói tem nomes diferentes. Muitos indícios, porém, apontam que todos derivam de uma única tradição muito antiga. Existe um protótipo mesopotâmico da história de Noé, com muitas semelhanças com ela – entre eles o poema de Atrahasis, mais antigo que a famosa Epopeia de Gilgamesh, decifrado há relativamente pouco tempo.
O texto provavelmente descreve uma enchente local. As pesquisas indicam que, naquele período, várias grandes cidades sofreram bastante com inundações. Na opinião de alguns pesquisadores, tanto a narrativa bíblica quanto as epopeias babilônicas podem, portanto, se referir a acontecimentos reais e locais.
A hipótese do Noé sumério
Com base nisso, alguns pesquisadores propõem a sua própria reconstrução da história de Noé. Ela poderia ter ocorrido na Suméria, na cidade de Shuruppak. Os sumérios foram os primeiros a desenvolver a escrita e a contabilidade e estavam entre os primeiros povos a usar a roda. Segundo essa hipótese, o protótipo de Noé não era agricultor, mas um rico mercador, ou até – como dizem os relatos mesopotâmicos – o rei de Shuruppak, que, no entanto, não estava acima da lei. Para fins comerciais, ele não construiu uma arca, mas um grande barco. A Epopeia de Gilgamesh descreve uma embarcação dividida em compartimentos.
Para descer o Eufrates com mercadorias, era preciso planejar cuidadosamente cada viagem e esperar o degelo da primavera – a neve derretida tornava o rio navegável para embarcações maiores. Segundo as tabuinhas babilônicas, no dia da partida houve um banquete a bordo. O tempo mudou de repente: veio uma tempestade e, depois dela, uma enchente catastrófica. Há alguns milhares de anos, o clima da região era mais úmido e quente, o que favorecia tempestades e enchentes violentas. O Eufrates podia facilmente transbordar sobre a planície mesopotâmica.
Segundo a Bíblia, o temporal durou 40 dias; segundo as tabuinhas babilônicas, sete. As diferentes versões concordam, porém, que durante sete dias não se avistou terra. De acordo com essa hipótese, o herói da narrativa não navegava pelo Eufrates, mas foi arrastado para as águas do Golfo Pérsico. A Bíblia situa o local onde a arca pousou nos montes de Ararat, mas, se a enchente foi local, pode-se apontar outro lugar – a terra de Dilmun, identificada com o atual Bahrein.
A narrativa foi, ao longo dos séculos, escrita, transmitida e ampliada, ganhando uma dimensão religiosa cada vez mais profunda. Depois de muitos séculos, uma de suas versões chegou aos sacerdotes judeus, que a incluíram nos livros bíblicos. Ao lê-la, é difícil não perceber o ensinamento que ela contém: se a humanidade abandonar a fé e a justiça, pagará um alto preço por isso. Independentemente das hipóteses históricas, para os fiéis a história de Noé continua sendo, acima de tudo, uma narrativa de fidelidade, obediência a Deus e esperança de um novo começo.
